* texto originalmente publicado na edição 1641 do Anotações Tricolores

Numa época em que fato se confunde com opinião, em que jornalismo se confunde com ativismo e em que a imprensa profissional foi capturada pelas emoções sempre latentes das redes sociais, cabe uma reflexão maior sobre o que aconteceu no Morumbi na última terça-feira, quando o São Paulo jogou contra o Juventude.
Antes de irmos aos fatos relacionados ao jogo, cabe compreender como chegamos a esse estado de confusão mental. Em seu livro A Sociedade da Transparência, Byung-Chul Han reflete:
“Hoje, a comunicação visual se realiza como contágio, ab-reação ou reflexo. Falta-lhe qualquer reflexão estética. […] A complexidade retarda a velocidade da comunicação, e a hipercomunicação anestésica, para acelerar-se, reduz a complexidade.”
Se a hipercomunição da era digital exige velocidade, a melhor forma de se atingir esse objetivo é simplificar. A simplificação em si não é necessariamente ruim. Pelo contrário: pode ser boa no sentido de ajudar na clareza da mensagem. Mas, quando o debate público migrou para as redes sociais, os algoritmos criaram um sistema de simplificação automatizada e progressiva, em que até mesmo o contexto básico é extraído do fato, esvaziando-o.
O objetivo das big techs, como se sabe, é manter as pessoas presas às telas pelo maior tempo possível. Se o algoritmo determina que conteúdos escandalosos e sensacionalistas serão premiados pelas plataformas, subindo no ranking do engajamento, essa lógica vai repercutir de forma decisiva não só no tipo de conteúdo que o público vai consumir, como também nas pautas que os jornalistas profissionais irão buscar.
A crise dos jornais e grupos de mídia é anterior à chegada das redes sociais, mas o que se observou nos últimos quinze anos é que, para além do declínio financeiro, houve também o declínio do maior patrimônio que um grupo de mídia pode ter: sua credibilidade. À medida que a radicalização política da sociedade avançava, proliferavam acusações de viés político da mídia, que estaria mais preocupada com seus próprios interesses comerciais e agendas ideológicas.
De volta ao jogo contra o Juventude no Morumbi, vamos aos fatos que ajudam a descrever o contexto da partida:
- A torcida apoiava o trabalho do técnico Hernán Crespo. Sua demissão no início do mês passado, ocorrida de forma arbitrária e sem nenhuma justificativa convincente, ainda não foi digerida nas arquibancadas, mesmo tendo ocorrido há 45 dias.
- A rejeição pelo grupo político que dirige o São Paulo, que já era alta, cresceu ainda mais depois dos casos de corrupção revelados nos últimos meses.
- Após a demissão de Crespo, qualquer técnico que viesse já chegaria sob uma pressão muito forte, por acumular toda essa carga negativa.
- A torcida já elegeu o executivo de futebol Rui Costa como o grande vilão do momento, e as críticas a Róger Machado — justas ou injustas — se resumem ao campo, porque ali é o espaço do torcedor.
- O trabalho de Crespo não era perfeito, mas havia uma consistência no time, e essa consistência se esvaiu rapidamente com a chegada de Róger.
- Róger não conseguiu realizar nem sequer um trabalho convincente em sua carreira como técnico e chegou a ter sua contratação barrada pela torcida do Corinthians, em 2023.
Estes são os fatos, checados e comprovados. Na noite do jogo, após uma sequência de resultados ruins, a torcida que compareceu ao estádio decidiu vaiar o treinador antes mesmo de a bola rolar. Por mais injusto e contraproducente que fosse, era evidente que essa manifestação já carregava uma frustração anterior, pelos caminhos que foram escolhidos pela diretoria.
Ignorando todos os fatos relacionados acima — e adotando os piores vícios das redes sociais —, alguns colunistas da mídia esportiva decidiram que, por trás das vaias, havia um sentimento sombrio e inconfessável: um suposto preconceito racial da torcida contra Róger.
Claro que existe racismo no Brasil e no mundo, e já vimos várias manifestações dessa natureza no futebol. Porém, não existe nenhuma evidência de que as vaias dirigidas a Róger uma semana atrás se enquadravam nesse contexto. Ao contrário do que querem os fabricantes de narrativas conspiratórias, todas as evidências apontam para questões meramente futebolísticas. Róger simplesmente ainda não conseguiu se firmar como um técnico de primeira linha, e está comprovando isso no São Paulo.
É de se esperar que narrativas falsas circulem em perfis de teóricos da conspiração e parasitas de rede social. Afinal, eles estão lá apenas para cumprir as ordens do algoritmo e serem recompensados pelo engajamento. Entretanto, quando vemos jornalistas, diplomados ou não, propagando esse tipo de insinuação, meramente especulativa e esvaziada de fatos e contexto, fica mais fácil compreender como os veículos de mídia chegaram a este atual estado das coisas. Pior ainda é perceber que os próprios veículos não coíbem esse tipo de retórica que ignora e/ou afronta o factual, mostrando que os mecanismos de autorregulação também estão falhando.
Hoje, o que se vê nos canais de esportes é uma sucessão infindável de “reacts” que, da mesma maneira que sugere Byung-Chul Han, revelam como acontece a hipercomunicação por contágio, recebendo de volta uma torrente de ab-reações apaixonadas que garantem a audiência e a sobrevivência do veículo no curto prazo.
Por outro lado, ao se fazer refém da lógica de engajamento das redes sociais, a imprensa mina sua própria credibilidade e, no longo prazo, alimenta a mesma crise que já dizimou redações em todo o mundo. Por estar mais exposta a paixões de torcidas e suscetível aos humores das redes sociais, a imprensa esportiva acaba por se transformar na manifestação mais clara e imediata desse doloroso processo de autofagia.