
Era 25 de agosto de 2006. Eu, com 30 anos recém completados, conhecia pouco sobre o universo onde estava prestes a entrar. Havia um ar de frescor e novidade em tudo. Minha única “sabedoria” naquele momento era de que aquilo não era o que queria fazer – era o que eu precisava fazer.
E lá fui eu para a Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho promover o lançamento de corruPTos?… mas quem não é? O título já entregava uma visão nada otimista de país, e eu tinha consciência de que o mensalão era algo muito maior do que um escândalo de corrupção qualquer. Mais do que o dinheiro desviado, aquilo representava o fim de um discurso, visto que o PT seria o último bastião moral da política, a ponto de receber de Leonel Brizola o apelido jocoso de “UDN de Macacão”.

Para quem só julgou o livro pela capa, a interpretação simplória era de que se tratava de um livro anti-PT ou “de direita”. Dizem que comunicação não é o que você diz, mas o que o outro entende. Claro que os antipetistas amaram o livro e o usaram como arma em discussões políticas. Ali eu aprendia que um autor não possui nenhum controle sobre como sua obra será vista. Um livro será o que os leitores quiserem que ele seja.
Um ano depois, eu iniciava a minha trajetória de cinco anos como chargista do Jornal da Tarde. Minha chegada ao Grupo Estado não se deu por causa do conteúdo do livro em si, mas serviu como comprovação de que eu tinha capacidade analítica e técnica para assinar as charges da página 2 do jornal. E lá fui eu entrar em mais um universo novo: uma redação de jornal.
Cresci ouvindo falar que “jornalistas são todos petistas”. Bem, um jornal era uma representação de um pouco de tudo o que existia dentro de um debate político/cultural de sua época, com todas as suas idiossincrasias e contradições. Mas, se não é correto dizer que “eram todos petistas”, era seguro dizer que todos se situavam do centro à esquerda – lembrando que os mais ao centro daquela época eram vistos como “de direita”, já que a direita de fato entrou em estado de hibernação após a ditadura e só acordaria anos depois, com Bolsonaro.
Claro que muitos jornalistas de redação vieram da época das utopias e da luta contra a censura, então era natural que tivessem suas preferências pela estrela vermelha – especialmente os mais seniors. Outro aprendizado valioso que eu tinha ali era a compreensão de que ser petista e ser de esquerda eram coisas diferentes.
Sou de outra geração, que cresceu em meio à desilusão com o país da hiperinflação e da hipercorrupção. Não que não houvesse causas para acreditar. Era só essa sensação de inadequação que sempre me acompanhou por toda a vida. Millôr Fernandes, meu autor favorito, definia esse sentimento como “a paz da descrença”.
Da forma como eu enxergo, o compromisso de um chargista é, antes de tudo, com o humor. Minha concepção deste trabalho é cristalina: analisar criticamente, não poupar qualquer personagem que seja e jamais ceder a pressões das torcidas organizadas. Minha obrigação era me ater aos fatos e estar bem informado para poder criticar. Para isso, lia três jornais e navegava pelos grandes portais todos os dias.
O Jornal da Tarde cobria a prefeitura e o governo do estado de São Paulo, portanto, era um jornal que criticava muito os governos tucanos. Nenhum problema para mim. Ao contrário: ia em direção a essa minha crença de que todos, sem exceção, precisam ser criticados sem piedade – e os três livros da Trilogia partiram dessa premissa.
Mesmo compartilhando a paz da descrença com o mestre, tomei a liberdade de subverter a lógica, alimentando-a com uma crença.
Fim do ciclo no JT e novo livro
Quase oito anos depois, no dia 29 de maio de 2014, veio o segundo livro: Trágico e Cômico: os protestos em charges. Todas as circunstâncias ali eram diferentes. Mais experiente e mais confiante após encerrar meu ciclo na redação do JT/Estadão, agora eu tinha uma editora. O livro chegou às prateleiras pela Primavera Editorial, após a indicação do Luis Eduardo Matta, que já tinha publicado com eles.

Mas o que mais tinha mudado nesses oito anos era o próprio Brasil. Embora ainda fôssemos governados pelo PT, as “jornadas de junho de 2013” revelaram que estávamos diante de algo novo. Até hoje os cientistas políticos têm dificuldades para explicar o que aconteceu com o país durante e após os protestos. As pautas difusas das ruas revelavam algo que ultrapassava uma mera insatisfação com o governo, embora muitos petistas ainda se esforcem para reduzir esse acontecimento a apenas mais um levante golpista.
Trágico e Cômico trazia muitas das charges que publiquei no jornal sobre os governos tucanos e sobre todos os outros partidos, funcionando como um mosaico de críticas ao sistema partidário. Era uma versão ilustrada da erosão desse sistema de governo de coalisão, alimentado pela negociação de cargos e favores em troca da governabilidade. Resumindo, era um país mergulhado na corrupção sistêmica onde o PT era apenas parte do problema, e não o problema todo. Óbvio que essa conclusão não agradou ao público antipetista.
Não que isso tenha me incomodado, pois não entrei nessa pensando em criar um fã-clube. Naquele momento, teria sido bem mais fácil retratar o PT como o mal absoluto e capitalizar as vendas em cima de um movimento que só crescia. Mas, como eterno desajustado que sou, recusei a oportunidade e também a chance de tornar o livro um sucesso editorial.
Nessa época, eu já enxergava a crescente polarização como um dos maiores problemas do país, mas era uma visão não só impopular, como ela não criava “engajamento”, algo obrigatório na era das redes sociais, que já começavam a colonizar todos os espaços de mídia.
Se por um lado, eu perdi os leitores de antes, outros vieram. De alguma forma, o livro chegou aos jovens do Ensino Médio, que o consideraram “didático”. Do ponto de vista de um leitor ainda em busca de uma alfabetização política, o mosaico que desenhei fez sentido para eles. A partir daí passei a me interessar mais por debates com as novas gerações e saber como eles pensam. Era também uma forma de antever algumas tendências e formular hipóteses para o futuro, além de abrir o caminho para a próxima estrada que eu tomaria: a da educação.
Essa mudança de área me fez muito bem. Não só porque o mercado jornalístico e editorial aprofundou ainda mais a sua crise e inviabilizou o meu trabalho como cartunista, mas também porque eu precisava de uma reinvenção. Fiz uma pós-graduação – onde, pela primeira vez na vida, me descobri um bom estudante – e me embrenhei em novos conhecimentos.
De volta aos trabalhos para escrever o capítulo final
“Quando eu pensava que estava fora, eles me puxam de volta!” Foi assim, me sentindo um Michael Corleone com covid, que me vi compelido a lançar um terceiro livro. Seria o capítulo final da trilogia. Conforme descrevi na introdução de DISTOP!A: uma interpretação sobre o país do ódio, este terceiro volume nasceu não apenas em função dos acontecimentos do governo Bolsonaro, mas também para encerrar essa etapa da minha vida nos meus termos.

Dessa vez não só não haveria editora, como não haveria nem noite de autógrafos. O “lançamento”, se podemos chamar assim, ocorreu no dia 1º de setembro de 2022 em forma de uma campanha de crowdfunding. Mas o mais complicado de tudo nem era isso. A pergunta era “qual seria o meu público nessa empreitada?”, uma vez que eu já estava fora de combate há anos e a polarização se aprofundou de tal forma que não restou nada fora do esquema “Lula x Bolsonaro”.
Considerando que os petistas nunca foram fãs do meu trabalho e os antipetistas estavam todos abraçados ao personagem central desse novo livro, o que restava? Diante de um cenário adverso como esse, restou fazer uma microsegmentação em uma lista de e-mails de pessoas que, na melhor das hipóteses, não iriam me odiar.
Seguindo critérios rígidos, a lista começou com 500 nomes e foi encolhendo até chegar em 200. Ao final de tudo, 50 almas benevolentes contribuíram. Eram os meus últimos leitores, a quem agradeci imensamente. E, como esse texto foi originalmente publicado no Digestivo Cultural, aproveito para agradecer ao Julio, que sempre deixou as portas abertas para mim. De certa forma, ali se tornou “a casa” da Trilogia.
A campanha fechou com apenas 47% do valor que eu tinha me proposto a levantar. Mesmo considerando que esse cálculo era baseado no aumento dos custos de impressão, ficava claro ali que os meus leitores eram justamente aqueles que se alienaram da política como forma de se autopreservar. Não julgo. Eu também entrei em “estado de autopreservação”, a ponto de muitas pessoas próximas nem chegarem a saber da existência desse terceiro livro até os dias de hoje. Peço desculpas por essa revelação tão tardia.
A charge morreu, mas não juro que não fui eu. Ela só deixou de ser uma forma de arte que convida o público à reflexão sobre um tema da atualidade. Na nova era de dominância dos memes, as pessoas não parecem ter se dado conta de que o meme parte de uma premissa oposta à da charge: ao invés de abrir um debate, ele o encerra de forma “lacradora”, para usar outra expressão da moda. Nas mãos das militâncias, virou arma.
Um dos maiores danos promovidos pelas big techs foi a aniquilação desse exercício do contraditório, tão necessário não só para nossa cognição, mas também para o debate público. As pessoas perderam por completo a capacidade de aceitar conteúdos com os quais não concordem. O leitor de hoje não quer refletir, quer concordar.
A missão do algoritmo foi cumprida: empurrar as pessoas para as “certezas absolutas” e eliminar quaisquer dúvidas que possam surgir. O mundo binário é mais confortável e simples de explicar. Acho muito difícil o público largar esse vício em narrativas fantásticas de “bem x mal”, por isso acho pouco provável que a charge volte a ser relevante.
Hoje a polarização já mostra sinais de cansaço, mas não a ponto de trazer esse grande público alienado de volta ao debate. Não ajuda em nada o papel que parte da própria imprensa vem fazendo. Muitos jornalistas deixaram os fatos de lado para entrar de cabeça na guerra de cliques e de narrativas das redes sociais. Alguns ainda usam a justificativa de estão na luta para “salvar a democracia”. Como grande admirador da literatura e do jornalismo de George Orwell, não vejo isso com bons olhos.
Memórias póstumas de um autor sem público
Millôr Fernandes se autodefinia como “um escritor sem estilo”, ao recusar fórmulas de escrita e ironizar o academicismo dos “intelequituais”. Inspirado no mestre, criei minha própria marca: o autor sem público.
Hoje, ainda com exemplares dos três livros para vender, encontrei uma nova forma de fazê-los circular: os sebos. Alguns compram um exemplar de cada, outros compram em quantidade a preços módicos. Tudo bem. Importante é que os livros continuem encontrando esses leitores escondidos. Minha sugestão de marketing para os livreiros é um sinal dos tempos que correm: “Cansado da polarização? Leia a Trilogia de Charges!”
Gostaria que, no futuro, os livros ganhassem uma nova chance e chegassem nesse grande público que hoje se vê excluído do debate. Caso isso não aconteça, não tem problema. Saberei que meus quase-leitores estarão em companhia da “paz da descrença”.
Para você que chegou até o final desse texto julgando os livros pelas capas: quer dizer que eu comecei minha carreira de chargista pela direita porque criticava Lula/PT e terminei virando à esquerda porque critiquei Bolsonaro? Se o mundo binário das redes sociais fosse real, faria sentido, mas não. Não é isso.
Se quer mesmo saber como me defino politicamente, aqui vai: não existe uma ideologia que consiga fechar todas as questões para mim. Essas velhas visões de estado mínimo vs. estado máximo, recicladas da guerra fria, nunca me disseram nada. A social democracia, que seria um caminho do meio, também mostrou suas limitações. A própria ideia de democracia liberal também se exauriu e está sob ataques populistas.
Mas curioso mesmo foi o que aconteceu com o liberalismo: nas mãos da direita, virou neoliberalismo, onde só a pauta econômica importa; enquanto que, nas mãos da esquerda, se inflamou através das lutas identitárias. Assim, o mundo moderno criou esse paradoxo de dois liberalismos radicalizados e autoritários.
Nesse contexto, uma frase do Millôr – sempre ele – me trouxe a clareza necessária: “os pássaros voam porque não têm ideologia.” Não que a ideologia seja ruim por si só, mas se isso significar adesão automática, já não funciona para mim. Ser militante é limitante.
O balanço que faço dessa empreitada toda é de que, apesar dos percalços, tudo valeu a pena. Esse trabalho não é o que eu faço: é parte do que sou. Jamais passou pela minha cabeça a hipótese de não publicar esses livros por receio de eventuais represálias.
Nos tempos de luta, eu fazia charges que iam da extrema esquerda à extrema direita, passando pelo extremo centro. Hoje me defino apenas como um ex-cartunista em atividade.